Sonhar é verbo.
Este é um chamado: sigamos aprendendo, experimentando e co-criando. Com a coragem que nosso tempo exige. Porque os futuros que queremos — possíveis, plurais e habitáveis — começam agora. Imaginar um mundo melhor ainda é, por vezes, considerado um gesto ingênuo — como se sonhar fosse o oposto de agir. No entanto, sonhar é verbo. Sonhar é ação.
Os sonhos expressam esperanças, desejos e ambições profundas. Movem ideias, inspiram transformações e alimentam a inovação. Sem cair na armadilha da autoilusão ou da positividade tóxica, sonhar é uma forma de mobilizar o presente em direção ao futuro. Cada grande conquista coletiva nasceu como o sonho de alguém: movimentos por direitos, revoluções artísticas e culturais, descobertas científicas, estratégias sociais de combate à fome, tecnologias ancestrais de cuidado com a vida e o território.
Falar de sonhos não é ignorar os desafios. É reconhecer as condições adversas — sociais, econômicas, culturais — que limitam possibilidades e dificultam a realização de projetos de vida. Ainda assim, é escolher uma postura ativa: uma recusa a habitar a catástrofe como destino inevitável.
Há quanto tempo vivemos sob a lógica de futuros colapsados? Que respostas temos produzido a partir desse imaginário?
Como afirmou Paulo Freire, esperançar é um verbo em movimento. É a construção ativa de novos possíveis — não apenas a tentativa de consertar o que está quebrado, mas a coragem de criar o que ainda não existe e faz falta.
A narrativa de que o futuro é um beco sem saída não nos serve. Precisamos de outras. Cultivar futuros desejáveis requer método, planejamento e, não menos importante, encantamento. Exige redes, encontros e experiências que ampliem horizontes imaginativos.
Na Toriba, sonhar é verbo e prática cotidiana que une imaginação, arte e comunicação para pensar o que ainda não está dado. Apostamos na força dos sonhos como motor de transformação e colocamos nossa energia, recursos e alegria a serviço da materialização de futuros compartilhados.
Contar histórias é um ato político
Contar histórias é uma prática milenar e profundamente política. Elas reproduzem memórias, lições, mitos, cantos, silêncios e segredos. De geração em geração, as histórias cruzam o tempo, estimulam a imaginação sobre quem queremos ser e como viver.
Mas toda história é uma escolha: quem conta decide o que fica vivo e o que desaparece. Contar histórias é moldar o mundo, definir o que será lembrado, celebrado ou silenciado. É assim que narrativas atravessam ou criam fronteiras que delimitam quem importa, quem é destacado e quem é apagado.
Por isso, repetir uma história única é reproduzir o poder de poucos sobre o imaginário de muitos. Quando só uma versão circula, o mundo encolhe e junto com ele, nossa própria possibilidade de existir de todas as formas possíveis. O que se repete cria estereótipos. O que se silencia sufoca futuros.
Recontar é quebrar esse monopólio. É dizer: há outras vozes, outros caminhos, outros sentidos. É abrir espaço para histórias que foram abafadas, para memórias ancestrais, para verdades que se multiplicam. Quando recontamos, deslocamos a lente — e convidamos outros a escutar o que antes não se dizia.
Por isso, toda história que resiste, que circula, que se espalha seja num conto popular, num mito ancestral, numa roda de griôs, num slam de poesia, numa conversa de avó, é também uma trincheira. Uma insurgência contra o esquecimento.
Contar e recontar histórias é um gesto radical de imaginação. É declarar que nenhuma versão é definitiva. É reivindicar o direito de lembrar e de inventar. É garantir que nossa memória seja fértil o bastante para abrigar muitos passados e fértil demais para deixar de vislumbrar futuros desejáveis e plurais.
