No Laboratório de Narrativas de Futuros Democráticos — iniciativa do Instituto Toriba em parceria com a Escola de Comunicação da UFRJ — recebemos a presença provocadora de Pedro de Senna. Futurista, designer e mestre em teatro, Pedro não veio apenas falar sobre o futuro. Ele nos fez sentir o futuro.
No campo dos estudos de futuros, não é raro que encontremos uma certa dificuldade de gerar representações e experiências a partir do que foi imaginado – o que autores como Candy e Dunagan chamaram de “abismo experiencial”. Pedro propõe uma rota: construir pontes entre imaginação e ação através da performance. Seu conceito de Futuros pela Performance rompe com o distanciamento analítico e nos convida a entrar em cena, dando corpo ao futuro e modificando – desde já – o presente.
Com base em práticas teatrais e no trabalho de pensadores como Bertolt Brecht e Augusto Boal, ele propõe um método em que os futuros deixam de ser apenas hipóteses para se tornarem experiências. Não se trata apenas de representar o que virá, mas de performar o que pode ser — para tensionar, transformar, agir.
Inspirado pelo Teatro do Oprimido de Boal, não raramente Pedro fica diante do espect-ator — aquele que participa, questiona e muda a história.
Durante sua aula, Pedro apresentou uma estrutura generosa: bases teóricas, referências, casos práticos, perguntas provocadoras e exercícios que nos arrancaram da zona de conforto. Em suas palavras:
“Se examinarmos as disciplinas de Estudos de Futuros, Foresight e Letramento de Futuros em relação às práticas do teatro e da performance, pode-se traçar uma série de paralelos: jogos; narrativas; geração de realidades alternativas; geração de imagens; planejamento; e improviso.”
Esses paralelos não são coincidências. “O teatro sempre foi uma ferramenta para imaginar mundos e, ao mesmo tempo, transformá-los”, afirma Pedro, completando que os gregos antigos já sabiam disso, tanto que o teatro fazia parte da vida democrática. Pedro resgata esse espírito, usando o tempo não apenas como cenário, mas como ferramenta para imaginar radicalmente. Para sentir antes mesmo que os cenários imaginados aconteçam.
A performance, então, deixa de ser espetáculo e vira estratégia. Vira ensaio para o possível. Vira campo de luta e laboratório de esperança. Porque imaginar o futuro é uma forma de disputar o presente.
Em breve, trechos do curso estarão disponíveis no canal do Instituto Toriba, no YouTube. Entrar em cena com a gente vai valer cada minuto. Afinal, o futuro não está escrito; está sendo ensaiado, disputado, vivido — em performance.
Por que começar o novo, de novo
Uma exploração de outras formas de contribuir com a transformação social
Não é segredo que já há algum tempo que me sinto em crise com o ativismo uma certa lógica de fazer ativismo que predomina no campo em que eu circulo.
Há pelo menos dois anos tenho podido expressar meu desconforto abertamente e compartilhar questionamentos em público, e tenho feito muitas conversas inspiradoras sobre facetas do que considero uma crise de imaginação do campo progressista.
É indiscutível que as organizações da sociedade civil entre as quais transito têm enorme e valiosa capacidade de elaborar análise crítica, de fazer diagnósticos, de criar estratégias de resposta, resistência e combate à opressão. E, reconhecendo a importância destas abordagens, sinto falta de outras que ajudem a descrever aquilo que queremos. Somos ótimos em dizer o que não queremos. Somos bons em ser anti. Mas isso não é suficiente. Faz falta o ativismo que abra caminhos de fabulação, ainda que rumo a cenários hoje aparentemente improváveis, com ousadia e atrevimento criativo. É comum que nos faltem palavras e imagens quando somos convidados a descrever vividamente as realidades que queremos construir.
É importante dizer que até bem pouco tempo também me faltava musculatura para sugerir outras possibilidades para mim mesma, para reorientar a minha contribuição no campo da transformação social e ambiental. Por tenho me dedicado a investigar formas de exercitar a imaginação num fazer (pós) ativista, antes de tudo aceitando que também sou um tentáculo do monstro, e mergulhando em fissuras pouco conhecidas atrás das minhas capacidades exiladas.
Neste percurso sou inspirada por irresistíveis provocações. Uma das mais recentes é a convocação de uma jovem feminista negra que se dedica a “invocar outros jeitos” (“to invoke the otherwise”, nas palavras de Lola Olufemi). “Substitua os outros jeitos por aquilo que a mantém viva”, ela diz. E assim eu faço.
É importante dizer que este não é um convite para explorar outros jeitos que já estão se anunciando no horizonte, aparentemente esperando por nós. Trata-se de abraçar o desconhecido, confiando nas promessas que fazemos a nós mesmas de estar no mundo a serviço do amor, da solidariedade, da vida. Trata-se de ser capaz de superar a ficção dominante que o sistema atual conta sobre si mesmo sem parar, e que absorvemos e performamos sem perceber. Trata-se de novas pedagogias.
Me interessa agora explorar o que podemos imaginar coletiva e radicalmente e, nesse processo, superar as noções cristalizadas no “é assim que se faz” a política, a campanha, o espaço comum, o caminho de saída, o advocacy, a filantropia, a parceria, a mobilização. No meu ponto de vista, diante das múltiplas crises que enfrentamos e cujos agravamentos se anunciam, diante dos desmantelamentos de instituições e sistemas que aparentemente nos mantinham seguros, é arriscadíssimo continuar fazendo as coisas somente do jeito que sabemos, seguindo a cartilha do “é assim que se faz”. Nos ecossistemas em que transito, gasta-se muito, muito dinheiro repetindo fórmulas criadas num mundo que não existe mais, para responder a problemas que não conhecíamos há dez anos. Não me sinto confortável com isso. Meu senso de urgência me faz acordar quase todos os dias às três da manhã. E não desperto porque estou angustiada. Desperto porque quero ideias novas e estou curiosa.
Não faz sentido seguir o dia ignorando os outros jeitos que me invocam, que assobiam para mim na madrugada. Por isso está nascendo a Toriba. Para ser um espaço de alargamento de possibilidades sobre as visões de futuro que somos capazes de desenhar coletivamente. E para promover experimentação de outros jeitos de fazer ativismo, filantropia, inovação social, de promover mudança. Um espaço para lembrarmos que tudo que entendemos como realidade foi inventado, que o futuro não é propriedade de ninguém, e que não precisamos de autorização para inventar outros sistemas.
O “como” fazer isso está em construção, mas algumas linhas já estão traçadas: no próximo ano a Toriba vai reunir artistas, criativos e ativistas para pensar e desenhar coletivamente percursos para novas narrativas; vai fazer pequenos apoios a obras de ficção; vai desenvolver metodologias para processos de imaginação coletiva e contribuir com organizações, coletivos e comunidades no desenho de futuros desejados; vai colaborar com a instituições filantrópicas em processo de repensar-se e experimentar novas práticas; e vai fazer muitas, muitas conversas. Se interessa a você especular junto, explorar como é possível nutrir coletivamente novos imaginários, prototipar novas estratégias e caminhos de ação, enfim, se interessa a você invocar outros jeitos, fica aqui o convite para uma conversa.
Sobre futuros, filantropia e mudança social pra valer.
Desde que comecei a buscar referências sobre estudos de futuro, tenho recebido recomendações sobre o trabalho da Amy Webb. Confesso que tive bastante resistência em ler mais sobre ela, mesmo sem motivo concreto — me interesso mais por estudiosas e praticantes que venham de outras partes do mundo. Impliquei com a Amy Webb sem uma razão concreta, e pronto. Ainda assim, quando vi que os vídeos dos paineis do SXSW mais recentes estavam disponíveis no YouTube, a apresentação dela foi a primeira que busquei para assistir. Sorte minha.
Amy Webb me surpreendeu positivamente, apesar das piadas ensaiadas que obviamente estavam no roteiro que ela lia, e das pausas planejadas para esperar pelas risadas. Essa parte não funcionou pra mim. Mas ao chegar ao final do vídeo, me senti compelida a atender ao chamado à ação com o qual ela conclui sua fala. Terminei de assistir à apresentação convencida de que preciso compartilhar o que vi e ouvi.
Embora o trabalho da Amy seja voltado prioritariamente para empresas — seus principais clientes — e no final de sua fala ela também se dirija a governos, tudo que ela disse me fez pensar nos impactos dos cenários de futuros sobre a sociedade civil organizada e a filantropia. Não é possível que sigamos nestes campos ignorando as das tendências que a futurista apresenta. Me assusta o fato de alguns desses temas jamais fazerem parte de conversas sobre estratégias de ação, planos de resiliência e sobre questões emergentes no campo da democracia, dos direitos humanos e da proteção dos recursos naturais. Nem os financiadores do campo da tecnologia e dos direitos digitais estão tratando com consistência as possibilidades de disrupção que batem à nossa porta, diante da profunda transição tecnológica que estamos vivendo.
Eu nunca fui arauto do fim do mundo, muito menos promotora de teorias da conspiração. Ainda assim, ouvi muitos comentários irônicos de parceiros ativistas quando, em meados da primeira década deste século, começamos a alertar sobre temas como proteção da privacidade, vigilantismo, e outras questões estruturais que abriram a porta para problemas para os quais ainda hoje buscamos soluções, sem um fio que nos guie pelo labirinto. Tampouco trabalho movida pelo medo — a Toriba foi criada para contribuir para imaginários que alimentem a vontade de agir e contribuam para promover engajamento coletivo em direção às realidades que desejamos, que intuímos possíveis. “Outro mundo é possível” continua sendo um slogan para nós. E “Tô vendo uma esperança” poderia ser nossa tagline.
Justamente por isso, sugiro com entusiasmo que assistam ao vídeo da Amy Webb no SXSW. Na minha cabeça, fazer essa sugestão é um paradoxo. E tudo bem. Estou aprendendo que paradoxos são chaves importantes para as leituras de mundo que precisamos aprender a fazer, assumindo que somos o que Amy chama de “geração T” — a geração da Transição. Não importa que idade você tenha, você faz parte dessa geração.
Me pega no fígado a afirmação da futurista de que “nós continuamos esperando por mudanças, mas adotamos os incentivos errados para promovê-las”. Ela tem razão quando diz que os maiores incentivos do mercado de tecnologia (que nos afeta a todos) são “velocidade e escala”, porque é daí que vem o dinheiro. E também quando afirma que esses incentivos promoverão mais e mais distorções e preconceito. Por isso, os problemas que já começamos a enfrentar como consequências de tecnologias como IA e LLMs ficarão piores. Na leitura da Amy, as equipes de grandes empresas de tecnologia dedicadas a questões éticas não são tratadas como relevantes, e o aumento da velocidade e escala no desenvolvimento e implementação de AI aprofundará os desafios éticos que já existem, além de criar novos.
Infelizmente, o apetite por “velocidade e escala” extrapola as fronteiras do Vale do Silício. Quase todas as organizações da sociedade civil que conheço, que inovam trabalhando territorialmente, que experimentam e inventam novas abordagens e metodologias com suas comunidades locais, que prototipam modelos de transformação social e ambiental enraizadas em realidades e culturas específicas, já ouviram de financiadores a pergunta: e como isso gera escala? Que indicadores, produtos e resultados você apresentará em dois anos? Em muitos casos, estas perguntas estão formalizadas em modelos de propostas e de relatórios. E assim, muitas instituições filantrópicas buscam “soluções” usando a mesma lente que, conforme a futurista, está na origem de alguns dos maiores desafios que estamos enfrentando, e que veremos se agigantar — ironicamente, em escala e com velocidade para os quais não estamos preparados.
Olhando para o futuro com os pés bem fincados no presente, sei que as narrativas em torno da “busca por soluções” num setor que está mudando radicalmente a partir do Vale do Silício merece atenção. Para além do dinheiro, Amy também lembra que vem de lá a ideia de que “salvar a humanidade é bem cool, atualmente”. “Cada um dos messias da tecnologia tem sua própria visão sobre como nos salvar. Eles chamam isso de “effective altruism”. Eles chamam isso de tecno-otimismo. Mas a verdadeira cara disso é de um tecno-autoritarismo de livre mercado. Nós não precisamos de ninguém para nos salvar. Nós só precisamos nos planejar melhor para o futuro”.
Na última parte da sua fala, a futurista oferece recomendações. Para os governos, ela recomenda: estabeleçam departamentos de transição. “Nossos líderes eleitos precisam olhar pra frente, não pra trás, não importando que idade tenham.” Criem instâncias de tratamento paliativo para empresas. “É hora de simplesmente reconhecer que certos tipos de empresas e de empregos vão deixar de existir. Olhem mais para os setores onde os seres humanos serão definitivamente necessários a longo prazo”.
Para as empresas, ela adverte: mapeiem sua cadeia de valor. E nesse tema ela oferece o exemplo da Blackberry — que deixou de perceber segmentos de negócios significativos para o futuro dos seus produtos… e sabemos o que aconteceu como consequência.
Para nós, pessoas comuns, o recado é: “Lutem por seu futuro. Podemos fazer transições em direção a algo realmente maravilhoso. Mas precisamos trabalhar para isso.”
Acho úteis as recomendações. E me atrevo a dizer que todas elas servem para os universos em que transito — filantropia e sociedade civil organizada —, mas com adaptações. Então, inspirada pela futurista branca estadunidense que recentemente aprendi a admirar, ofereço minhas recomendações para a filantropia e a sociedade civil organizada da minha pequena bolha:
- Sim, olhem para frente e também para trás e para os lados.
É possível olhar para a frente e para os lados, e caminhar nutridos pelas raízes e histórias que nos precederam. Imaginar futuros não é fazer tábula rasa. Se preparar para o novo e desconhecido não é coisa que se possa fazer sozinho. Ao olharmos para os lados, reconhecemos com quem podemos seguir na escolha radical de imaginar e dizer novas realidades e futuros desejados. Realidades e futuros — no plural, sempre. Neste século, não há lugar para messias nem herói. A criação é inexoravelmente coletiva.
- Sim, mapeiem suas cadeias de valor — e também seus valores.
Se não houver humildade e coragem entre seus valores institucionais, sugiro considerá-los e incorporá-los. Erraremos muito. Já estamos errando faz tempo. Deixamos de perceber coisas importantes porque ficamos viciados em estar do lado certo da história, em ter razão, em manter vivas organizações e sistemas onde nos sentimos seguros, mesmo quando já não fazem sentido. Somos viciados em ser protagonistas (e não só da nossa própria história, vamos admitir). Fazemos de conta que sabemos coisas que não sabemos, apesar de tanta pesquisa e diagnóstico. Queremos mudar o mundo lá fora, mas manter nosso status. Co-criamos ambientes de constante julgamento — a medida do nosso medo de sermos julgados é a medida do nosso julgamento sobre os outros. Estou na frente, nessa fila. Morro de medo de ser julgada por quem me ouve e me lê, e cada fala pública e texto publicado é motivo de pesadelos antes e depois. Mas sinto que já não tenho tempo a perder sustentando essa empáfia. E reconheço que sou mestre em fazer julgamentos equivocados. Do tipo que me fizeram ter tanto preconceito contra a Amy Webb.
- Sim, lutem pelo seu futuro. Trabalhem por ele. Mas não façam só isso.
Lutar e trabalhar esgotam. Acho que nunca houve tantos ativistas esgotados. A maioria das pessoas com quem converso se sentem exauridas. “Lutar” e “trabalhar” são palavras de ordem de um mundo esgotado. São convocações para produzir continuamente, e servem prioritariamente àqueles mesmos sistemas que nos esgotam, que nos roubam a criatividade, a força vital, que nos roubam o espaço interno, o vazio e o tempo necessários para a geração de outras ideias, visões, palavras, afetos, vida.
Com os olhos colados à timeline, produzimos sem parar e sem perceber. Performamos tempo todo. É preciso parar, negar-se a (re) produzir. É preciso aquietar para imaginar o que mais é possível. Não há escala ou velocidade que superem a importância das transformações que emergem de exercícios de imaginação colectiva ousados e transformadores, de narrativas generativas, da ação poderosa que emerge do nosso espaço interior expandido e do pertencimento a uma comunidade. Convido-nos a abraçar humilde e corajosamente a possibilidade de brincar nas fendas de sistemas disfuncionais sem pressa, ao mesmo tempo que reimaginamos corajosamente a tecnologia, a filantropia e a justiça social, já inevitavelmente afetados pelos sonhos que teremos amanhã.
