{"id":6982,"date":"2026-08-14T12:12:54","date_gmt":"2026-08-14T15:12:54","guid":{"rendered":"https:\/\/toriba.org.br\/?post_type=conteudo&#038;p=6982"},"modified":"2026-09-24T08:25:55","modified_gmt":"2026-09-24T11:25:55","slug":"encantamento-como-pratica-politica","status":"publish","type":"conteudo","link":"https:\/\/toriba.org.br\/en\/conteudo\/encantamento-como-pratica-politica\/","title":{"rendered":"Encantamento como pr\u00e1tica pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Uma conversa com Paolo Demuru, por Instituto Toriba<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paolo Demuru \u00e9 semioticista, professor do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pesquisador do Centro de Pesquisas Sociossemi\u00f3ticas da PUC-SP. Ele estuda como narrativas chegam ao poder \u2014 e o que est\u00e1 emergindo entre quem escolhe contar hist\u00f3rias afirmativas.<br><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><br>Voc\u00ea estuda comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica h\u00e1 anos. O que mudou nas \u00faltimas d\u00e9cadas na forma como certas for\u00e7as pol\u00edticas constroem pertencimento?<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que se consolidou ao longo dos anos 2010, no Brasil e fora, foi uma forma de comunica\u00e7\u00e3o que n\u00e3o apostava em explica\u00e7\u00f5es racionais, dados ou argumentos l\u00f3gicos. Apostava em hist\u00f3rias \u2014 hist\u00f3rias capazes de criar pertencimento coletivo e vis\u00f5es ut\u00f3picas de futuro. Isso foi muito eficaz. E o campo progressista, durante muito tempo, respondeu jogando na defensiva: rebatendo, desmentindo, negando. O problema \u00e9 que, como Lakoff j\u00e1 mostrou, quando voc\u00ea diz &#8220;n\u00e3o pense num elefante&#8221;, a primeira coisa que algu\u00e9m faz \u00e9 pensar num elefante. Rebater o discurso do outro muitas vezes o refor\u00e7a.<br><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><br>E o que voc\u00ea est\u00e1 vendo surgir agora?<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos \u00faltimos anos, comecei a perceber casos no campo progressista que inverteram essa rota. N\u00e3o apenas no Brasil. Experi\u00eancias que deixaram de se limitar ao contra e passaram a afirmar \u2014 a projetar um outro mundo poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um caso emblem\u00e1tico, aqui, foi a campanha pelo fim da escala 6&#215;1. O slogan n\u00e3o \u00e9 &#8220;contra a escala 6&#215;1&#8221;. \u00c9 vida al\u00e9m do trabalho. A palavra vida ali carrega uma densidade sem\u00e2ntica enorme: mais tempo com quem se ama, mais descanso, uma exist\u00eancia que n\u00e3o se define pelo trabalho. Num momento em que certas plataformas e suas lideran\u00e7as pregam um produtivismo exacerbado \u2014 trabalhe mais, durma menos, quem n\u00e3o se matar trabalhando n\u00e3o merece \u2014, esse slogan afirma o contr\u00e1rio sem precisar debater com o advers\u00e1rio. Ele projeta. E foi muito eficaz: gerou consenso muito al\u00e9m do campo progressista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fora do Brasil, a campanha de Zohran Mamdani em Nova York fez algo parecido. N\u00e3o era apenas contra os super-ricos ou contra a desigualdade. Era pela cidade que se quer construir \u2014 concreta, acess\u00edvel, com transporte p\u00fablico gratuito, mercados com pre\u00e7os regulamentados. A city we can afford. O slogan Mulheres Vivas, no Brasil, opera na mesma l\u00f3gica: n\u00e3o \u00e9 apenas contra o feminic\u00eddio. \u00c9 a favor de um outro mundo a partir da vis\u00e3o das mulheres. O termo vida retorna tamb\u00e9m aqui como grande horizonte.<br><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><br>Voc\u00ea fala em &#8220;negacionismo sem\u00e2ntico&#8221; para descrever o que o campo progressista fazia. Pode explicar melhor esse conceito?<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 a tend\u00eancia de responder sempre no registro do n\u00e3o: n\u00e3o \u00e9 isso, isso \u00e9 mentira, esse dado est\u00e1 errado, esse discurso \u00e9 perigoso. Tudo verdadeiro, muitas vezes necess\u00e1rio. Mas insuficiente, porque n\u00e3o projeta nada. N\u00e3o cria desejo. O plebiscito chileno de 1988 entendeu isso de forma magistral. Em vez de falar apenas das atrocidades da ditadura \u2014 o que seria leg\u00edtimo e verdadeiro \u2014, a campanha falou da beleza de um outro mundo poss\u00edvel, ao alcance de todos. O slogan a alegria j\u00e1 vem n\u00e3o nega a ditadura: afirma a vida. \u00c9 uma invers\u00e3o passional: da raiva, que \u00e9 a paix\u00e3o do contra, para o entusiasmo, que \u00e9 a paix\u00e3o do a favor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O discurso clim\u00e1tico ainda tem muito desse problema. Fala em cat\u00e1strofe, inevitabilidade, fim do mundo se n\u00e3o fizermos algo. E o que isso gera, clinicamente, n\u00e3o \u00e9 a\u00e7\u00e3o coletiva. \u00c9 o que os psicanalistas t\u00eam chamado de ansiedade clim\u00e1tica \u2014 o desejo de se proteger, de fechar-se, de garantir a sobreviv\u00eancia individual. O contr\u00e1rio do que se quer. Seria preciso tamb\u00e9m lembrar \u00e0s pessoas que o mundo que habitamos \u00e9 bonito e merece ser cuidado por isso \u2014 n\u00e3o apenas por medo do colapso.<br><\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><br>Quem trabalha com imagin\u00e1rios emancipat\u00f3rios costuma ser acusado pelos pr\u00f3prios pares de ingenuidade ou escapismo. O que voc\u00ea diria a isso?<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que utopia e concretude n\u00e3o s\u00e3o opostos \u2014 e que a tarefa \u00e9 justamente junt\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vida al\u00e9m do trabalho \u00e9 um sonho. Mas \u00e9 um sonho muito pr\u00f3ximo do cotidiano de quem acorda cedo para trabalhar seis dias por semana. N\u00e3o \u00e9 um sonho de ir para Marte. \u00c9 o sonho de ter tempo para descansar, de estar com quem se ama, de existir al\u00e9m do trabalho. E parte de uma proposta concreta: acabar com um regime de trabalho espec\u00edfico. Ali n\u00e3o h\u00e1 escapismo. H\u00e1 ancoragem na realidade e horizonte ao mesmo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A CLT j\u00e1 foi um sonho. O voto das mulheres j\u00e1 foi um sonho. Os direitos trabalhistas, o casamento afetivo \u2014 tudo isso, antes de existir, era considerado utopia. O que a hist\u00f3ria mostra \u00e9 que quando o discurso \u00e9 ao mesmo tempo ut\u00f3pico e concreto, ele gera consenso amplo \u2014 dentro e fora do campo progressista. Porque, no fundo, quem n\u00e3o quer mais tempo de vida?<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><em>Esta conversa foi realizada pelo Instituto Toriba como parte de sua s\u00e9rie de di\u00e1logos sobre imagina\u00e7\u00e3o c\u00edvica, narrativas e futuros democr\u00e1ticos.<\/em><\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\" style=\"flex-basis:33.33%\"><\/div>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma conversa com Paolo Demuru, por Instituto Toriba Paolo Demuru \u00e9 semioticista, professor do programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pesquisador do Centro de Pesquisas Sociossemi\u00f3ticas da PUC-SP. Ele estuda como narrativas chegam ao poder \u2014 e o que est\u00e1 emergindo entre quem escolhe contar hist\u00f3rias afirmativas. 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