Histórias
E se pessoas do futuro participassem das decisões de hoje?
Silvana Bahia
2 min
13 jul 2026
Imaginar o futuro nunca foi um exercício neutro. As imagens que projetamos adiante — sejam utópicas ou distópicas — carregam consigo escolhas, ausências e enquadramentos. Toda narrativa sobre o que está por vir revela, também, quem está sendo considerado no presente.
Grande parte dos futuros que circulam hoje, especialmente aqueles mediados pela tecnologia e pelo discurso do progresso, ainda reproduzem um mesmo ponto de vista: urbano, branco, globalizado e orientado por uma lógica de eficiência. Neles, o futuro aparece como extensão linear do presente — mais rápido, mais inteligente, mais automatizado — mas raramente mais justo.
Ao mesmo tempo, outros futuros seguem sendo imaginados fora desses centros. Em territórios indígenas, quilombolas e periféricos, o porvir não se apresenta como ruptura total, mas como continuidade e recomposição. São futuros que não se constroem a partir da ideia de superação da natureza, mas de relação com ela. Que não apostam no indivíduo como unidade central, mas no coletivo como condição de existência.


Quando essas perspectivas não aparecem nas narrativas dominantes, não se trata apenas de uma questão de representatividade. Trata-se de limitação de horizonte. Um futuro que não consegue se ver plural é, por definição, um futuro empobrecido.
Perguntar quem ainda não se vê nas histórias que contamos é, portanto, mais do que um exercício crítico — é um convite à reconfiguração. Exige deslocar o olhar, revisar repertórios e, sobretudo, abrir espaço para que outras vozes não apenas participem, mas conduzam processos de imaginação.
Talvez o desafio não seja apenas incluir mais pessoas nas histórias já existentes, mas permitir que outras histórias surjam — com outras lógicas, outros tempos e outras formas de existir. Porque ampliar quem imagina é, também, ampliar o que pode ser imaginado.
E, nesse movimento, o futuro deixa de ser um destino pré-definido para se tornar um campo em disputa — onde diferentes mundos não apenas coexistem, mas reivindicam a possibilidade de existir.
Imaginar, aqui, é um gesto coletivo de resistência, invenção e construção de futuros plurais.