Entrevistas
Encantamento como prática política
Paolo Demuru
4 min
14 ago 2026
Uma conversa com Paolo Demuru
Paolo Demuru é semioticista, professor do programa de pós-graduação em Letras da Universidade Presbiteriana Mackenzie e pesquisador do Centro de Pesquisas Sociossemióticas da PUC-SP. Ele estuda como narrativas chegam ao poder — e o que está emergindo entre quem escolhe contar histórias afirmativas.
Você estuda comunicação política há anos. O que mudou nas últimas décadas na forma como certas forças políticas constroem pertencimento?
O que se consolidou ao longo dos anos 2010, no Brasil e fora, foi uma forma de comunicação que não apostava em explicações racionais, dados ou argumentos lógicos. Apostava em histórias — histórias capazes de criar pertencimento coletivo e visões utópicas de futuro. Isso foi muito eficaz. E o campo progressista, durante muito tempo, respondeu jogando na defensiva: rebatendo, desmentindo, negando. O problema é que, como Lakoff já mostrou, quando você diz “não pense num elefante”, a primeira coisa que alguém faz é pensar num elefante. Rebater o discurso do outro muitas vezes o reforça.
E o que você está vendo surgir agora?
Nos últimos anos, comecei a perceber casos no campo progressista que inverteram essa rota. Não apenas no Brasil. Experiências que deixaram de se limitar ao contra e passaram a afirmar — a projetar um outro mundo possível.
Um caso emblemático, aqui, foi a campanha pelo fim da escala 6×1. O slogan não é “contra a escala 6×1”. É vida além do trabalho. A palavra vida ali carrega uma densidade semântica enorme: mais tempo com quem se ama, mais descanso, uma existência que não se define pelo trabalho. Num momento em que certas plataformas e suas lideranças pregam um produtivismo exacerbado — trabalhe mais, durma menos, quem não se matar trabalhando não merece —, esse slogan afirma o contrário sem precisar debater com o adversário. Ele projeta. E foi muito eficaz: gerou consenso muito além do campo progressista.
Fora do Brasil, a campanha de Zohran Mamdani em Nova York fez algo parecido. Não era apenas contra os super-ricos ou contra a desigualdade. Era pela cidade que se quer construir — concreta, acessível, com transporte público gratuito, mercados com preços regulamentados. A city we can afford. O slogan Mulheres Vivas, no Brasil, opera na mesma lógica: não é apenas contra o feminicídio. É a favor de um outro mundo a partir da visão das mulheres. O termo vida retorna também aqui como grande horizonte.
Você fala em “negacionismo semântico” para descrever o que o campo progressista fazia. Pode explicar melhor esse conceito?
É a tendência de responder sempre no registro do não: não é isso, isso é mentira, esse dado está errado, esse discurso é perigoso. Tudo verdadeiro, muitas vezes necessário. Mas insuficiente, porque não projeta nada. Não cria desejo. O plebiscito chileno de 1988 entendeu isso de forma magistral. Em vez de falar apenas das atrocidades da ditadura — o que seria legítimo e verdadeiro —, a campanha falou da beleza de um outro mundo possível, ao alcance de todos. O slogan a alegria já vem não nega a ditadura: afirma a vida. É uma inversão passional: da raiva, que é a paixão do contra, para o entusiasmo, que é a paixão do a favor.
O discurso climático ainda tem muito desse problema. Fala em catástrofe, inevitabilidade, fim do mundo se não fizermos algo. E o que isso gera, clinicamente, não é ação coletiva. É o que os psicanalistas têm chamado de ansiedade climática — o desejo de se proteger, de fechar-se, de garantir a sobrevivência individual. O contrário do que se quer. Seria preciso também lembrar às pessoas que o mundo que habitamos é bonito e merece ser cuidado por isso — não apenas por medo do colapso.
Quem trabalha com imaginários emancipatórios costuma ser acusado pelos próprios pares de ingenuidade ou escapismo. O que você diria a isso?
Que utopia e concretude não são opostos — e que a tarefa é justamente juntá-los.
Vida além do trabalho é um sonho. Mas é um sonho muito próximo do cotidiano de quem acorda cedo para trabalhar seis dias por semana. Não é um sonho de ir para Marte. É o sonho de ter tempo para descansar, de estar com quem se ama, de existir além do trabalho. E parte de uma proposta concreta: acabar com um regime de trabalho específico. Ali não há escapismo. Há ancoragem na realidade e horizonte ao mesmo tempo.
A CLT já foi um sonho. O voto das mulheres já foi um sonho. Os direitos trabalhistas, o casamento afetivo — tudo isso, antes de existir, era considerado utopia. O que a história mostra é que quando o discurso é ao mesmo tempo utópico e concreto, ele gera consenso amplo — dentro e fora do campo progressista. Porque, no fundo, quem não quer mais tempo de vida?
Esta conversa foi realizada pelo Instituto Toriba como parte de sua série de diálogos sobre imaginação cívica, narrativas e futuros democráticos.