Artigo

Governança de organizações sem fins lucrativos: especulações sobre o que isso pode ser

Graciela Selaimen
5 min
17 ago 2026
Governança de organizações sem fins lucrativos: especulações sobre o que isso pode ser

Sistemas vivos mudam para se preservar.
— Margaret Wheatley

Governança é um conceito gigante em que cabe uma miríade de possibilidades de ações e processos, por meio dos quais coletivos e organizações surgem e persistem. Qualquer modelo de governança pressupõe interações entre diferentes atores para estabelecer acordos para tomada de decisão. É, portanto, um sistema de relações.

Quando se trata de organizações sem fins lucrativos, orientadas por uma missão social e nas quais valores e visões são explicitamente compartilhados, é de imaginar que as relações sejam baseadas em confiança, espírito de colaboração, abertura e respeito às diferenças. Entretanto, é muito comum que conversas sobre a governança das organizações causem apreensão e desconforto entre lideranças e equipes.

Talvez isso aconteça porque ainda hoje prevalecem pressupostos sobre o tema, que são heranças de um pensamento cibernético e linear de comando e controle, e de uma lógica de exercício de poder vertical. Entre as crenças que embasam essa visão, está a ideia de que é preciso controlar para mitigar problemas e superar divergências, e de que o poder de controle deve ser exercido por órgãos e atores de autoridade que se situam no topo de uma hierarquia, apoiados por sistemas de regras fixas.

Um dos problemas dessa perspectiva é que ela tende a gerar distanciamento entre conselhos, diretorias e o restante da equipe das organizações. O exercício do poder orientado a controlar e evitar problemas leva a enrijecimentos, limitação da criatividade, impulsos de autoproteção nas pessoas em diferentes níveis da hierarquia, medo da reprovação, negação ou ocultamento de vulnerabilidades, falta de confiança, alienação e adoecimento pessoal e coletivo, entre outros efeitos. Além disso, diante de toda a imprevisibilidade dos nossos dias, como uma organização que opera a partir da lógica de comando/controle pode aprender e adaptar-se? Como ser resiliente e flexível se a estrutura de governança não possibilitar renegociar regras com a agilidade que a realidade demanda? Como alimentar o senso de pertencimento e propósito compartilhado entre equipes e conselhos se não há proximidade e confiança que acolham fragilidades?

Felizmente, estão emergindo outras formas de pensar e colocar em prática modelos de governança que desafiam ou negam completamente a lógica vertical de exercício de poder. As práticas horizontais de distribuição de poder e de tomada de decisões são cada vez mais comuns em organizações da sociedade civil – principalmente entre as mais jovens. Há experimentações valiosas em curso, e elas não ocorrem sem dor. Modelos radicalmente comprometidos com a horizontalidade, embora ricos, generativos e criadores de maior senso de pertencimento e coesão dentro das organizações, dificilmente são compreendidos por instituições financiadoras, demandam esforços de adaptação a marcos regulatórios e legais existentes no Brasil (às vezes gerando artificialidades em documentos e sistemas) e encontram resistências mesmo entre algumas estruturas coletivas de organizações da sociedade civil, como redes e coalizões.

Assim, embora seja fato que há novos desenhos de governança surgindo, é importante lembrar que esse é um processo de mudança de cultura – não acontece da noite para o dia. Além disso, modelos horizontais frequentemente encontram seu limite à medida que as organizações crescem e seus processos de gestão e governança tornam-se mais complexos. Também não se pode afirmar que estruturas horizontais garantam a agilidade necessária para responder à velocidade das mudanças que ocorrem nos contextos em que as organizações atuam.

Estou convencida de que as possibilidades de experimentação em processo de governança não se resumem à racionalidade vertical ou horizontal. Desse modo, pensando na riqueza de outros caminhos e movimentos possíveis, tenho alimentado perguntas que gostaria de compartilhar aqui:

– Seria possível experimentar a governança institucional em fluxos alternados de verticalidade e horizontalidade nos processos, considerando todos os atores envolvidos igualmente importantes, interconectados e interdependentes?

– Como seria a governança de organizações que envolvessem atores-chave de seus territórios, tanto humanos quanto não humanos? Por exemplo, o que teria um rio a dizer sobre a governança de uma instituição sediada às suas margens? O que acontece quando se percebe e dialoga com o campo informacional e energético mais amplo que compõe sistemas coletivos?

– O que poderia ser feito se houvesse estruturas e dinâmicas pensadas para aprofundar a qualidade das relações entre as pessoas na organização, incluindo as conselheiras e colaboradoras que não estão no dia a dia do trabalho? O que acontece quando as distâncias entre as pessoas são encurtadas, quando os pressupostos baseados no medo da autoridade e da crítica são expostos, e possibilidades de participação e pertencimento são aprofundadas?

– Como a governança pode estar a serviço do aprendizado individual e coletivo, atenta às emergentes transformações dos sistemas e das culturas?

Não conheço respostas definitivas para nenhuma dessas perguntas. Também por isso acho tão interessante a exploração das possibilidades para as quais elas apontam. Nessas explorações, gosto das provocações e caminhos oferecidos por Margaret Wheatley:

O que vai emergir, à medida que recuperarmos identidades afirmativas de vida? Que nova cultura vai se formar em nós mesmas, nossas famílias, nossas organizações? Tudo depende dos valores que incorporarmos desde o princípio. Se incorporarmos valores ecológicos, se nos focarmos nas relações, se posicionarmos o aprendizado como um valor essencial, se buscarmos nos comportar como parceiras da vida, então teremos fortes chances de nos manifestar, auto-organizarmos como indivíduos vivendo e trabalhando com um propósito compartilhado em uma comunidade saudável. Como seria maravilhoso sermos mais capazes de ver claramente, escolher conscientemente, e saber o que fazer.

O que vai emergir, à medida que recuperarmos identidades afirmativas de vida? Que nova cultura vai se formar em nós mesmas, nossas famílias, nossas organizações? Tudo depende dos valores que incorporarmos desde o princípio. Se incorporarmos valores ecológicos, se nos focarmos nas relações, se posicionarmos o aprendizado como um valor essencial, se buscarmos nos comportar como parceiras da vida, então teremos fortes chances de nos manifestar, auto-organizarmos como indivíduos vivendo e trabalhando com um propósito compartilhado em uma comunidade saudável. Como seria maravilhoso sermos mais capazes de ver claramente, escolher conscientemente, e saber o que fazer.

Governança pode ser mais que comando e controle. É possível experimentar sistemas de governança que se originam da vida e servem a ela, em fluxos orgânicos que dialogam com cada parte e com o todo. O caminho nos convida a explorá-lo e não há respostas definitivas. Por isso, todas as perguntas, exemplos de tentativa e erro, e experiências de imaginação ativa são bem-vindos.